Por que foi para o Japão?
Antes do Japão estive na Austrália estudando por 2 anos e com isso fiz algumas “dívidas”. Assim, resolvi ir para o Japão, procurar um trabalho e poder pagar a dívida (já estava ali do lado mesmo :) ) A intenção era de ficar no Japão por 1 ano no máximo, mas acabei ficando, ficando e voltando (risos)
Na primeira vez foi para trabalhar em uma fábrica de autopeças. Minha família estava endividada em função dos inúmeros planos econômicos que descapitalizaram o supermercado da família. Tínhamos uma dívida de US$ 700 mil dólares. Felizmente conseguimos saldá-la. Na segunda vez foi para trabalhar no jornal International Press, um jornal impresso no Japão voltado para a comunidade latina no Japão.
Em 2000 para um arubaito (trabalho temporário) de final de ano e para conhecer o Japão durante as férias da faculdade no Brasil. Em 2006, para participar de um programa de estágio da província de Ehime e depois em 2007 para trabalhar.
Que tipo de trabalho exerceu?
Das duas vezes trabalhei na mesma empresa, na área de telecomunicações. A primeira trabalhei como system planner em VoIp, era responsável pelo contato entre a empresa do Japão com o nosso desenvolvedor no Brasil. A segunda fui arubaito na área de suporte da rede interna de informática da empresa.
Eu fazia barras de proteção lateral das portas e as colunas de direção dos carros da Toyota.
Trabalhei com veículos de comunicação voltados para comunidade brasileira que vive no Japão.
O que mais te surpreendeu quando chegou ao Japão?
A educação das pessoas e como tudo funciona tão corretamente.
A limpeza das ruas. Achei tudo muito limpo em relação ao Brasil. É impressionante a disciplina das pessoas para jogar o lixo em seus devidos lugares. Na época não se falava tanto em reciclagem ou separação de lixo no Brasil. Só depois que isso passou a ser realidade no Brasil.
O primeiro choque foi o frio, logo ao sair do aeroporto. Não achava que era possível sentir tanto frio! Depois foi a rigidez e disciplina no trabalho da fábrica e em seguida a língua “estranha”. Frequentei escolas japonesas no Brasil e em casa sempre falamos japonês e português misturado, mas eu não entendia quase nada do que me perguntavam nas lojas. Tive que “reaprender” o japonês e esquecer o “bachan-go” (a língua que minha avó falava).
O que mais gostou?
Do "customer service". Em nenhum lugar do mundo existe um atendimento tão bom e eficaz como no Japão.
Em relação à personalidade dos japoneses, gostei da educação. (Se bem que em algumas situações em que eles eram educados demais, soavam falsos). Em relação à estética, gostei da integração do antigo e do novo no Japão. Do tradicional com a vanguarda.
Adorei comer “comida japonesa de verdade”, a eficiência do transporte público, a limpeza das ruas, a sensação de segurança, tradições culturais mantidas nas cidades interioranas, a modernidade das grandes cidades como Tóquio, a preparação do locais turísticos para receber visitantes, etc.
O que menos gostou?
(risos) Essa pergunta é fácil! Do calor! Eu odiava o verão do Japão, um calor infernal!!
Entre as características que menos gostei da personalidade dos japoneses foi a inflexibilidade diante de coisas triviais. Certa vez fui a um restaurante brasileiro com o meu pai e fizemos a refeição lá. Mas depois de pagarmos, um brasileiro avisou que haveria um show de samba e sugeriu que ficássemos. Resolvemos ficar e quando começou o show uma garçonete perguntou o que queríamos comer. Falamos que tínhamos acabado de comer naquele mesmo restaurante e que só iríamos assistir ao show. Ela não permitiu, porque a mesa era destinada a quem estivesse consumindo. Pedimos dois chopes, mas ela disse que não era suficiente, pois precisávamos fazer a refeição. Reforçamos que tínhamos acabado de pagar pela refeição que fizemos naquele estabelecimento. Acabamos não assistindo ao show. No quesito estética, eu acho que o planejamento gráfico de jornais, revistas e publicidade são bem poluídos e isso se extende para a disposição de produtos nas lojas e para as casas de jogos, que tocam aquelas músicas barulhentas à beça.
De saber que a imagem dos brasileiros em alguns locais do Japão não era boa, gerando preconceito de ambas as partes. Do atendimento rápido e “frio” das poucas experiências que tive em atendimentos nos hospitais japoneses.
Quando regressou ao Brasil?
Em maio de 2012.
Na primeira vez regressei em dezembro de 1996. Na segunda vez foi em meados de 2007.
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"Você pode sair do Brasil, mas o Brasil não sai de você" Vitor Ogawa |
Foi dificil se readaptar?
Um pouco...
Se acostumar com a casa da gente é muito mais fácil e rápido. Você pode sair do Brasil, mas o Brasil não sai de você.
Não fiquei tanto tempo assim no Japão, mas, um pouco sim...
Por quê?
Morando no Japao por algum tempo, acabei acostumando a viver com um povo educado e organizado o que nao existe muito por aqui...Tambem tem a questao de seguranca, nao da para fazer comparacoes entre o brasil e o japao, infelizmente.
Tenho ascendência japonesa, mas nasci e fui criado no Brasil. Para mim é muito gostoso ouvir o idioma português com o sotaque brasileiro. Adoro tomar café de manhã saboreando um pão francês. Curto a boa comida caseira composta por arroz, feijão, bife e salada. Aprecio uma boa música brasileira. O clima também é muito aprazível.
Passado o primeiro mês de euforia, depois de matar as saudades de casa, da comida da mãe, bate uma vontade de voltar para o Japão ao perceber que ainda tem muita coisa que precisa ser melhorada no Brasil a começar pela falta de segurança, falta de regras (falta de cumprir as regras na verdade).
Por que resolveu voltar ao Brasil?
Achei que estava muito tempo no Japão, era hora de voltar. Na verdade, nunca tive vontade de ir ao Japão, acredita? A minha vida sempre esteve aqui, no Brasil. Pais, irmãs, cachorros, amigos...
Na primeira vez eu retornei para fazer um curso superior. Fiz jornalismo. Na segunda vez a minha mãe estava com um tumor na cabeça e eu fiquei cuidando dela. Infelizmente ela morreu pouco tempo depois que retornei ao Brasil.
Antes de sair do Brasil, planejei ficar somente 3 anos no Japão. Era o tempo suficiente para estudar a cultura, a língua e quem sabe juntar uma grana para viajar. Quando completei os 3 anos (e passou voando), deu vontade de ficar um pouco mais, mas pensei na família, na carreira e decidi que tinha que vir para o Brasil sem alterar os planos iniciais.
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"Eu adoeci e já não fazia mais sentido ficar longe da família, sentia muito a falta deles..." Andreia Sakihara |
O que mais pesou na decisão de voltar ou ficar?
O que pesou mesmo foi quando eu adoeci e já não fazia mais sentido ficar longe da família, sentia muito a falta deles. Não tinha mais como lutar contra a sensação de solidão do Japão, a falta de amigos/pessoas iguais a você, afinidades...
Na primeira vez foi a questão educacional, já que era um desejo latente progredir tanto culturalmente quanto financeiramente, pois o mercado de trabalho fecha as portas para quem não possui algum tipo de qualificação. Na segunda vez, foi por amor a minha mãe.
Perdi meu avô, (com quem passei a maior parte da minha infância) quando morava no Japão. Como foi de repente, não tive tempo de voltar para me despedir. Perdi aniversários, casamentos e outros momentos importantes na vida dos meus amigos e família. E a vontade de estar ligada novamente a esses momentos também pesaram bastante.
Você acha que você mudou em algo com a ida ao Japão? Que lições aprendeu?
Sim. Aprendi a dar muito mais valor à família, aos amigos, a educação e a respeitar a privacidade alheia.
Sim, aprendi a respeitar as diferentes culturas. Temos os nossos costumes, mas isso não quer dizer que eles são os melhores. Temos uma tendência de medir tudo pela nossa régua, de criticar costumes diferentes, mas é essa diversidade cultural que torna o mundo mais interessante.
Aprendi a aceitar, respeitar e lidar melhor com as diferenças. No Brasil tendemos a viver rodeados de pessoas que pensam e agem como nós. E esse grupo nos acompanha durante anos de nossa vida. Mas no Japão acabamos convivendo com muita gente que pensa e age de acordo com outros princípios, outras crenças e ouvi-las também é importante e me fez abrir os olhos para muitas coisas.
Sente falta de algo do Japão? O quê?
Sim. Dos amigos. Alguns deles sei que será um pouco difícil encontrá-los de novo. Também sinto falta da segurança, do atendimento ao cliente, do transporte, das lojas de conveniência, da culinária variada (Asiática, Europeia, Malasiana, etc) com um preço bem acessível.
Do sistema de transporte coletivo no Japão. Muito eficiente. Aqui no Brasil tudo é muito ruim nesse aspecto. Desde as informações, à comercialização dos bilhetes, o conforto dos coletivos e a lotação, que está sempre cheia.
Com certeza dos amigos que fiz lá. Também de pequenas coisas do dia a dia. Todos os dias me lembro de algo que sinto falta e que tinha acesso no Japão. Desde um bom lamen aos passeios para ver as árvores cheias de sakura.
Se pudesse escolher algo para ser importado do Japão para o Brasil, o que escolheria?
Restaurantes de shabu-shabu e yakiniku, as vending machines (máquinas automáticas de vendas), nikuman (apesar de ser chines...) e sem dúvida nenhuma, UMESHU!
Seria o transporte coletivo japonês. Mas tirando isso, gostaria muito do sistema de tratamento do lixo japonês. Já fiz reportagens sobre os lixões aqui no Brasil e é um absurdo o que fazem aqui, aterrando tudo.
Chocolate, sorvetes, quase todos os doces de lá e jidou hanbaiki (máquinas de vendas automáticas de bebidas, etc).
O que acha que o Brasil deveria aprender com o Japão?
A respeitar a privacidade do próximo. Dar mais valor a educação e cultura. Encarar as coisas mais profissionalmente. No Brasil tenho a impressão que tudo é tão amador.
A respeitar mais o dinheiro público. Em todas as esferas.
O comprometimento com que se propõem a cumprir os objetivos. Assim o Japão conseguiu reconstruir cidades totalmente devastadas por desastres naturais, traçam planos e os cumprem. Também o respeito pelo próximo, o valor da educação para o país.
O que acha que o Japão deveria aprender com o Brasil?
Deveriam ser mais flexíveis e extrovertidos. Encarar a vida sem muita rigidez e com um pouco mais de malícia.
A se divertir sem gastar dinheiro. A maioria dos passatempos no Japão exige dinheiro.
Valorizar a relação com a família. Mais flexibilidade na forma com que lidam com falhas, jogo de cintura (e não falo do jeitinho brasileiro). Talvez isso é que leve ao sucesso, mas também a frustração com erros me pareceu um tanto excessiva.
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"É um lugar que DEFINITIVAMENTE vale a pena conhecer em qualquer estação do ano" Priscila Ayumi
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Que conselho daria aos leitores que sonham em um dia conhecer o Japão?
Preparem-se para ver o japonês de verdade porque os do Brasil são brasileiros! Vá com a mente aberta, pois é um mundo bem diferente. Não se esqueca de respeitar a cultura deles, porque afinal, você estará no país deles. Se não souber falar japonês, não se preocupe pois os japoneses fazem de tudo para te entender, mas se esforce para aprender. Não conviva somente com brasileiros, só assim vai realmente aprender a cultura japonesa. Além disso, o Japão é um país multicultural, existem pessoas de toda parte do mundo, é uma ótima oportunidade para conhecer outras culturas também. Não desistam desse sonho pq vale muito a pena conhecer o Japão!
Que não se prendam aos pontos turísticos tradicionais. Explorem o país, não tenham medo de experimentar comidas exóticas. Não vá para outro país para comer em McDonald´s. Que observem tudo, desde os gestuais, modo de falar, modo de andar até a maneira como todos se comportam nas escadas rolantes, nas ruas, dentro dos transportes coletivos. E abraços a todos os leitores do Muito Japão!